Sábado, 13 de Setembro de 2008

Somos todos ejaculadores precoces

Embora nem tenha muito a ver com o assunto deste blog, tive que postar esse texto do Arnaldo Jabor. Cortesia da minha amiga Carmen Reis, A linguista!
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NOSSOS DIAS MELHORES NUNCA VIRÃO?

Ando em crise, numa boa, nada de grave. Mas, ando em crise com o tempo. Que estranho "presente" é este que vivemos hoje, correndo sempre por nada, como se o tempo tivesse ficado mais rápido do que a vida, como se nossos músculos, ossos e sangue estivessem correndo atrás de um tempo mais rápido.As utopias liberais do século 20 diziam que teríamos mais ócio, mais paz com a tecnologia. Acontece que a tecnologia não está aí para distribuir sossego, mas para incrementar competição e produtividade, não só das empresas, mas a produtividade dos humanos, dos corpos.
Tudo sugere velocidade, urgência, nossa vida está sempre aquém de alguma tarefa. A tecnologia nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas, fábricas vivas, chips, pílulas para tudo.Temos de funcionar, não de viver. Por que tudo tão rápido? Para chegar aonde? A este mundo ridículo que nos oferecem, para morrermos na busca da ilusão narcisista de que vivemos para gozar sem parar? Mas gozar como? Nossa vida é uma ejaculação precoce.
Estamos todos gozando sem fruição, um gozo sem prazer, quantitativo. Antes, tínhamos passado e futuro; agora, tudo é um "enorme presente", na expressão de Norman Mailer. E este "enorme presente" é reproduzido com perfeição técnica cada vez maior, nos fazendo boiar num tempo parado, mas incessante, num futuro que "não pára de não chegar".Antes, tínhamos os velhos filmes em preto-e-branco, fora de foco, as fotos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era precário e o futuro seria luminoso. Nada. Nunca estaremos no futuro. E, sem o sentido da passagem dos dias, da sucessibilidade de momentos, de começo e fim, ficamos também sem presente, vamos perdendo a noção de nosso desejo, que fica sem sossego, sem noite e sem dia. Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa, e cada vez mais nossa identidade vai sendo programada. O tempo é uma invenção da produção. Não há tempo para os bichos. Se quisermos manhã, dia e noite, temos de ir morar no mato.
Há alguns anos, eu vi um documentário chamado Tigrero, do cineasta finlandês Mika Kaurismaki e do Jim Jarmusch sobre um filme que o Samuel Fuller ia fazer no Brasil, em 1951. Ele veio, na época, e filmou uma aldeia de índios no interior do Mato Grosso. A produção não rolou e, em 92, Samuel Fuller, já com 83 anos, voltou à aldeia e exibiu para os índios o material colorido de 50 anos atrás. E também registrou, hoje, os índios vendo seu passado na tela. Eles nunca tinham visto um filme e o resultado é das coisas mais lindas e assustadoras que já vi.
Eu vi os índios descobrindo o tempo. Eles se viam crianças, viam seus mortos, ainda vivos e dançando. Seus rostos viam um milagre. A partir desse momento, eles passaram a ter passado e futuro. Foram incluídos num decorrer, num "devir" que não havia. Hoje, esses índios estão em trânsito entre algo que foram e algo que nunca serão. O tempo foi uma doença que passamos para eles, como a gripe. E pior: as imagens de 50 anos é que pareciam mostrar o "presente" verdadeiro deles. Eram mais naturais, mais selvagens, mais puros naquela época. Agora, de calção e sandália, pareciam estar numa espécie de "passado" daquele presente. Algo decaiu, piorou, algo involuiu neles.
Lembrando disso, outro dia, fui atrás de velhos filmes de 8mm que meu pai rodou há 50 anos também. Queria ver o meu passado, ver se havia ali alguma chave que explicasse meu presente hoje, que prenunciasse minha identidade ou denunciasse algo que perdi, ou que o Brasil perdeu... Em meio às imagens trêmulas, riscadas, fora de foco, vi a precariedade de minha pobre família de classe média, tentando exibir uma felicidade familiar que até existia, mas precária, constrangida; e eu ali, menino comprido feito um bambu no vento, já denotando a insegurança que até hoje me alarma. Minha crise de identidade já estava traçada. E não eram imagens de um passado bom que decaiu, como entre os índios. Era um presente atrasado, aquém de si mesmo.
A mesma impressão tive ao ver o filme famoso de Orson Welles, It's All True, em que ele mostra o carnaval carioca de 1942 - únicas imagens em cores do País nessa década. Pois bem, dava para ver, nos corpinhos dançantes do carnaval sem som, uma medíocre animação carioca, com pobres baianinhas em tímidos meneios, galãs fraquinhos imitando Clark Gable, uma falta de saúde no ar, uma fragilidade indefesa e ignorante daquele povinho iludido pelos burocratas da capital. Dava para ver ali que, como no filme de minha família, estavam aquém do presente deles, que já faltava muito naquele passado.
Vendo filmes americanos dos anos 40, não sentimos falta de nada. Com suas geladeiras brancas e telefones pretos, tudo já funcionava como hoje. O "hoje" deles é apenas uma decorrência contínua daqueles anos. Mudaram as formas, o corte das roupas, mas eles, no passado, estavam à altura de sua época. A Depressão econômica tinha passado, como um grande trauma, e não aparecia como o nosso subdesenvolvimento endêmico. Para os americanos, o passado estava de acordo com sua época. Em 42, éramos carentes de alguma coisa que não percebíamos.
Olhando nosso passado é que vemos como somos atrasados no presente. Nos filmes brasileiros antigos, parece que todos morreram sem conhecer seus melhores dias.E nós, hoje, nesta infernal transição entre o atraso e uma modernização que não chega nunca? Quando o Brasil vai crescer?
Quando cairão afinal os "juros" da vida?
Chego a ter inveja das multidões pobres do Islã: aboliram o tempo e vivem na eternidade de seu atraso. Aqui, sem futuro, vivemos nessa ansiedade individualista medíocre, nesse narcisismo brega que nos assola na moda, no amor, no sexo, nessa fome de aparecer para existir. Nosso atraso cria a utopia de que, um dia, chegaremos a algo definitivo. Mas, ser subdesenvolvido não é "não ter futuro"; é nunca estar no presente.

Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

UM MERGULHO PROFUNDO COM DAVID LYNCH

De onde surgem as idéias? Idéias são como peixes. Se você quer pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quiser um peixe grande, terá de entrar em águas profundas.
É assim que Davyd Lynch começa seu misto de memórias de "set" e confissões de um praticante da Meditação Transcendental (filosofia criada pelo Maharishi Mahesh Yogi, a quem os Beatles já idolatraram e depois chamaram-no "Saxy Sadie") no livro "Águas Profundas" (Gryphos, 2008, R$29,90 em média).
O livro é pequeno, rápido e irá agradar aos fãs de Lynch, cineasta que, heroicamente, transita sem problemas ou pudores entre o experimental independente e o cinemão de Hollywood. Criador de clássicos como "O Homem Elefante", "Veludo Azul", "Twin Peaks", "Estrada Perdida" e o mais recente e perturbador "INLAND EMPIRE - Império dos Sonhos", Lynch confessa que nunca foi fanático por cinema. Sua paixão sempre foi a pintura. Estudou na escola de Belas Artes, e lá teve uma experiência artística interessante que o fez despertar para as possibilidades das imagens em movimento.
Em sua narrativa autobiográfica (mas nem tanto, já que os detalhes foram sabiamente - para o bem da fluidez do livro - suprimidos) ele nos faz saber como sua vida estava um verdadeiro inferno no início dos anos 1970 e como descobriu a meditação, que o fez "mergulhar" em si mesmo e abrir um leque de horizontes em sua criatividade, além de trazer paz à vida pessoal.
Embora os apontamentos sobre filosofias zen certamente me interessaram, o que mais me chamou atenção foram os comentários sobre o processo criativo de seus principais filmes. Lynch levou quase seis anos para finalizar seu primeiro longa "Eraserhead", ainda nos anos 70, desencorajado pela família e pelos amigos. Ciente de seus objetivos e já praticando meditação, ele foi em frente e terminou o que hoje é uma das obras mais "cult" do cinema. Um verdadeiro incentivo aos jovens que buscam realizar obras originais e desafiadoras.



O mar de David Lynch é vasto, porém calmo. Aqueles que esperam um maníaco confessando sofrer de alucinações, visões malígnas e inquietação emocional (vide "Estrada Perdida", só como aperitivo!) irá se decepcionar. Lynch se mostra o oposto daquilo que seus filmes são. Ele argumenta que geralmente parte de uma imagem aleatória e, a partir do contato com seu próprio "eu unificado", passa a desenvolver tudo o que vem antes e tudo o que está depois dessa imagem. O capítulo dedicado ao filme "Veludo Azul" ilustra bem isso.
O ponto que mais dá apoio aos novos realizadores, no entanto, fica por conta da confessada admiração que David Lynch tem pelo cinema digital. Ele não usa mais película, filma numa câmera inferior às HD's e, hoje, dificilmente parte de um roteiro "amarrado" pelos diversos tratamentos que antecedem o início das filmagens. Foi assim com INLAND EMPIRE, seu sucesso de 2007, talvez uma das mais vigorosas experiências cinematográficas deste século!

Fica aí a dica: "Em Águas Profundas". Se você passa mais de uma hora preso no trânsito dentro de um ônibus terá condições de lê-lo na íntegra e quando descer do coletivo terá mudado suas visões sobre cinema e muitas outras coisas à sua volta.

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

PREMIÉRE!!!







Hoje, finalmente, exibi publicamente um dos meus vídeos experimentais. Trata-se de "Brain Eraser", finalizado no início desse ano e que ficou maturando na "gaveta" até o momento propício.
Brain Eraser fez parte do programa do Sarau Artes Múltiplas, organizado pela Unibero, faculdade na qual estudo. A experiência serviu para me dar coragem de mostrar mais vídeos, já que os colegas e professores receberam este trabalho com bons olhos, embora com estômagos embrulhados!
De quebra, ainda assisti à excelente leitura da minha grande amiga Carmen Reis, que subiu ao palco para ler alguns dos meus poemas.
Curioso? Brain Eraser e outros dos meus vídeos estão no You Tube(http://www.youtube.com/watch?v=rzi7JJYw5rA), ). Palavra-chave: Donny Correia

Domingo, 13 de Janeiro de 2008

ANATOMY OF DECAY

Já está disponível no Youtube o meu video arte experimental "Anatomy of Decay", uma colagem de sons e cenas de filmes antigos e documentários que investiga a violência interior e exterior, a relação entre o estético e o decadente, a perfeição da máquina criada por humanos para destruir os próprios criadores. Enfim, tirem suas conclusões! Está lá!
Trata-se de um video ready made. Escreverei mais sobre isso à diante.
Até!
O link: http://www.youtube.com/watch?v=SUokAiP7dSc

Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

ESSE MERTEN É DE MORTE!!!

Caros, reproduzo à seguir um texto de Luiz Carlos Merten. Um verdadeiro achado, disponível em seu blog no site do Estadão:

Merten diz:

Preparem-se que este post vai ser longo. Lá vou eu enfiar os pés pela mão, mas, enfim, o assunto é bom. Leon Cakoff publicou na Folha um texto contra a reserva de mercado do cinema brasileiro. Disse que é absurdo tentar ampliar o número de dias de exibição obrigatória para filmes brasileiros porque ninguém vai ao cinema obrigado. Existem dois ou três filmes que fazem (fizeram) sucesso e o restante é uma sucessão de salas vazias que oneram os exibidores. Leon Cakoff aproveita e faz campanha contra a meia-entrada, dizendo que ela é um anacronismo, que favorece a fraude – muita gente sem direito termina fazendo sua carteira falsificada – e, no limite, é isso que atira o preço dos ingressos lá em cima, pois o exibidor precisa se precaver, ressarcir etc. Embora seja criador da Mostra Internacional de Cinema São Paulo, Leon, obviamente, não está falando como cinéfilo, mas como comerciante. Afinal, ele não é apenas exibidor, mas também distribuidor (de filmes estrangeiros, do tipo miúra, que, na maioria das vezes, usam a vitrine da Mostra para ganhar visibilidade). Vamos por partes, como diria o estripador. Embora seja patrocinada pela Petrobrás, que tem aquele slogan que você sabe – a cultura brasileira é nossa energia –, a Mostra não tem uma grande tradição de ser uma vitrine do cinema brasileiro. Não é preciso nem comparar com a Première Brasil, no Festival do Rio. O negócio da Mostra sempre foi outro – cinema iraniano, etc e tal. Por exemplo -a Mostra criou um selo para lançamento de livros. Corrijam-me, se estiver errado, mas até hoje não lançou um livro ligado ao cinema brasileiro. OK, a reserva de mercado é odiosa (estou agora pensando na perspectiva do exibidor, na perspectiva de Leon Cakoff). O público não quer ver filmes brasileiros. O público da Mostra, pelo visto, não, já que o evento parece ter formado um público mais sintonizado com Kiarostami, Oliveira e outros grandes do cinema internacional. Mas o público não quer mesmo? No recente Dia do Cinema Brasileiro, um evento formador de público que a rede Cinemark realiza há vários anos, o preferido do público – com mais de 30 mil espectadores num único dia – foi um filme que, provavelmente, não havia feito isso (ou havia feito um pouco mais) ao passar regularmente nas salas. Estou falando de ‘O Homem Que Desafiou o Diabo’, de Moacyr Góes. Esculhambado pela crítica, ‘O Homem’ surpreendeu meio mundo – menos a produtora Lucy Barreto – ao atrair mais espectadores do que ‘Tropa de Elite’, de José Padilha, que foi o filme brasileiro mais badalado de 2007. Muita gente diz que o problema, ou os problemas, do cinema brasileiro são a ausência de salas populares, o alto preço dos ingressos e a falta de visibilidade para o produto nacional. A R$ 2, um monte de gente quis ver o filme de Moacyr Góes com Marcos Palmeira (que, aliás, está ótimo no papel). E aí, como fica, quando um filme que poderia ser citado como exemplo de rejeição do público ao cinema brasileiro é descoberto pelas grandes platéias? Será que não há nisso uma mensagem a ser decifrada? Quanto à meia entrada... Em Porto Alegre, há uma lei municipal segundo a qual o ingresso de estudante vale de segunda a sexta. No sábado e domingo, o estudante não paga meia, mas 70% do valor integral do ingresso (alguma coisa assim), sendo de ressaltar que o valor do ingresso total é inferior ao de São Paulo – R$ 13 contra R$ 18 ou 19. Com todas essas diferenças, o preço do ingresso é caro no Brasil. Xuxa fez uma análise interessante na entrevista que fiz com ela para o ‘Estado’ – seu público diminuiu, mas é um público cujo rendimento não acompanha o aumento do ingresso. O que ela percebe é que público hoje manifesta seu carinho de outras formas, não necessariamente na fila do cinema. Leon Cakoff é sócio de Adhemar Oliveira no Arteplex de Porto. Poderia argumentar que, embora exista esta tarifa diferenciada para estudantes – que não é a mesma do restante do País –, o preço do ingresso não tem a redução que Leon diz que teria, se não houvesse o meio ingresso. Mas também pode ser que seja essa característica local que permita que o Arteplex de Porto tenha tantas promoções para baixar o preço do ingresso (embora eu tenha a impressão que nunca se chegue ao exagero de R$ 2, que a rede Cinemark pratica no dia do cinema brasileiro). Vamos fazer as contas. Uma sala cheia a R$ 2 não é mais interessante do que uma miséria de platéia pagando ingresso cheio? Estou dizendo bobagem? Confesso que posso até ser considerado demagógico, mas sou a favor da meia-entrada. Já perdemos direitos demais no admirável mundo global para abrir mão de mais este. Por princípio, o meio ingresso deve ser um estímulo à formação de platéias, numa época em que o jovem pode baixar o filme na internet em vez de pagar, mesmo barato, para vê-lo no cinema. É claro que alguns filmes brasileiros vão sempre fazer menos público, porque são radicais, experimentais, alternativos, dêem o nome que quiserem. Não podemos exigir de todo mundo a platéia de '2 Filhos de Francisco' ou 'Se Eu Fosse Você'. ‘Estorvo’ e ‘Veneno na Madrugada’, de Ruy Guerra, ficam na rabeira do gosto do público. Gosto do primeiro, não gosto do segundo, mas estou convencido de que, bem trabalhados, estes filmes poderiam fazer mais espectadores. Tem muito filme estrangeiro com vocação de maldito – ‘Os Amantes Constantes’, de Philippe Garrel – que vira um sucesso para lá de estimável. Se ‘Os Amantes’ consegue, por que não o ‘Estorvo’? Existe um problema de preconceito que a formação de platéias, mais até do que a reserva de mercado, pode ajudar a diminuir, senão resolver. O que não dá é para diminuir a reserva e eliminar o meio ingresso, tudo junto, em nome da modernidade, só para deixar os exibidores felizes.

Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

TEASER

"Eu não guardo rancor do que você me fez passar"...

Vem aí, "ELE"

CINE MOFO #1


por Donny Correia

Gosto de passar umas boas horas da noite garimpando pérolas do domínio público cinematográfico disponíveis na internet. Numa dessas “andanças” topei com o site www.archive.org/movies, base de dados com milhares de filmes dos quais jamais havia ouvido falar.
Um desses filmes me chamou a atenção: Sex Madness (1934), título que passaria por uma produção da Buttman, mas que acabou me revelando alguns dados históricos de um tipo de cinema que eu não conhecia.
Vejamos, o diretor, Dwain Esper, seria um Ed Wood dos anos trinta, ou seja, alguém com vontade e garra, mas com talento ou critério nulo. Exemplifico evocando outro filme dele, também disponível no mesmo site, chamado Manic, de 1936. Os diálogos de Maniac são inaudíveis e a fotografia tão escura que mal dá pra se ver o rosto dos atores. E eu duvido que tais defeitos tenham sido causados pelo tempo...
Voltando ao Sex Madness, a estória (se é que se pode chamar estória), conta a aventura de uma mocinha ingênua (e elas sempre dão um bom mote) do interior que vai para a cidade grande tentar a sorte. Deixa o noivo e a família e vai correr atrás de dinheiro. Acaba se envolvendo com um homem mais velho e malandrão, de quem contrai sífilis (a AIDS que semeava o terror em nossos avós). Ela acaba infectando o noivo à seguir, e o resto do filme é uma aula de educação sexual disfarçada de melodrama, com um óbvio final redentor. Temas como orgias e lesbianismo, tabus da época, também estão no filme de Esper, obviamente tão mal pensados, escritos e rodados quanto possível.
Agora, o leitor se pergunta: então, se é tão ruim, porque este dileto rapaz gasta seu fôlego com tais considerações?
Respondo, digníssimo leitor: Sex Madness é genial! É o retrato de uma época do cinema C, quem sabe D, até. Filme que se enquadra nos primórdios dos Exploitations, tipo de produção concebido para explorar temas, 90% das vezes, ligados à sexualidade, à violência e às drogas (lembrando que com o passar das décadas, tais temas foram tocados com menos pudor e mais sensacionalismo desmedido, caso de Canibal Holocausto, de 1979). Por isso, Esper fez escola e logo começaram a pipocar filmes como Reefer Madness e Cocaine Fiends, todos lá no mesmo site.
Provavelmente, Esper foi um homem que cresceu dentro das tradições mais puritanas possíveis numa família religiosa americana. Digo “provavelmente”, porque não se sabe quase nada sobre ele, além do fato de que incumbia sua esposa de escrever os roteiros, e mal sabia enquadrar um plano na câmera. Além do mais, em Sex Madness é possível perceber talvez uma das primeiras manifestações paranormais registradas por uma câmera, no momento em que uma janela (falsa, claro) se fecha sozinho (por acidente, claro) enquanto duas personagens ocasionais – e digo ocasionais porque nos filmes de Esper os personagens vêm e vão sem maiores explicações, ou mesmo nenhuma, diria – conversam numa cozinha. Erros deliciosamente, hilário.
Aos que ficaram interessados em confe-rir esses primeiros trabalhos incompetentes, notem que todos os filmes que se enquadram na categoria que citei começam com um letreiro enorme (que toma 3 ou 4 minutos do início da projeção) sintetizando a ideologia que o filme buscará seguir. Obviamente um recurso para burlar a psicologia dos personagens e a profundidade do tema. Mas, apesar disso, eu adoro esses filmes toscos, com fotografia péssima, diálogos horrorosos e reveladores de uma história que Hollywood faz questão de ocultar.