quarta-feira, 3 de setembro de 2008

UM MERGULHO PROFUNDO COM DAVID LYNCH

De onde surgem as idéias? Idéias são como peixes. Se você quer pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quiser um peixe grande, terá de entrar em águas profundas.
É assim que Davyd Lynch começa seu misto de memórias de "set" e confissões de um praticante da Meditação Transcendental (filosofia criada pelo Maharishi Mahesh Yogi, a quem os Beatles já idolatraram e depois chamaram-no "Saxy Sadie") no livro "Águas Profundas" (Gryphos, 2008, R$29,90 em média).
O livro é pequeno, rápido e irá agradar aos fãs de Lynch, cineasta que, heroicamente, transita sem problemas ou pudores entre o experimental independente e o cinemão de Hollywood. Criador de clássicos como "O Homem Elefante", "Veludo Azul", "Twin Peaks", "Estrada Perdida" e o mais recente e perturbador "INLAND EMPIRE - Império dos Sonhos", Lynch confessa que nunca foi fanático por cinema. Sua paixão sempre foi a pintura. Estudou na escola de Belas Artes, e lá teve uma experiência artística interessante que o fez despertar para as possibilidades das imagens em movimento.
Em sua narrativa autobiográfica (mas nem tanto, já que os detalhes foram sabiamente - para o bem da fluidez do livro - suprimidos) ele nos faz saber como sua vida estava um verdadeiro inferno no início dos anos 1970 e como descobriu a meditação, que o fez "mergulhar" em si mesmo e abrir um leque de horizontes em sua criatividade, além de trazer paz à vida pessoal.
Embora os apontamentos sobre filosofias zen certamente me interessaram, o que mais me chamou atenção foram os comentários sobre o processo criativo de seus principais filmes. Lynch levou quase seis anos para finalizar seu primeiro longa "Eraserhead", ainda nos anos 70, desencorajado pela família e pelos amigos. Ciente de seus objetivos e já praticando meditação, ele foi em frente e terminou o que hoje é uma das obras mais "cult" do cinema. Um verdadeiro incentivo aos jovens que buscam realizar obras originais e desafiadoras.



O mar de David Lynch é vasto, porém calmo. Aqueles que esperam um maníaco confessando sofrer de alucinações, visões malígnas e inquietação emocional (vide "Estrada Perdida", só como aperitivo!) irá se decepcionar. Lynch se mostra o oposto daquilo que seus filmes são. Ele argumenta que geralmente parte de uma imagem aleatória e, a partir do contato com seu próprio "eu unificado", passa a desenvolver tudo o que vem antes e tudo o que está depois dessa imagem. O capítulo dedicado ao filme "Veludo Azul" ilustra bem isso.
O ponto que mais dá apoio aos novos realizadores, no entanto, fica por conta da confessada admiração que David Lynch tem pelo cinema digital. Ele não usa mais película, filma numa câmera inferior às HD's e, hoje, dificilmente parte de um roteiro "amarrado" pelos diversos tratamentos que antecedem o início das filmagens. Foi assim com INLAND EMPIRE, seu sucesso de 2007, talvez uma das mais vigorosas experiências cinematográficas deste século!

Fica aí a dica: "Em Águas Profundas". Se você passa mais de uma hora preso no trânsito dentro de um ônibus terá condições de lê-lo na íntegra e quando descer do coletivo terá mudado suas visões sobre cinema e muitas outras coisas à sua volta.

2 comentários:

ABittar disse...

Donny
Muito bom seu comentário
Conciso didático de fácil assimilação e fácil entendimento
Bela dica
Parabéns
ABittar
poetadosgrilos

Dennis Mag disse...

Passei rápido por aki, mas jah percebi que a gt tem algo em comum, a escrita, além da curiosidade infinita sobre as coisas de diferentes naturezas...serei seu leitor com certeza. Desculpe a pressa estou em trânsito a caminho de Sampa. O blog está perfeito e em breve terei o maior prazer em comentar seus artigos. Parabéns.