Gosto de passar umas boas horas da noite garimpando pérolas do domínio público cinematográfico disponíveis na internet. Numa dessas “andanças” topei com o site
www.archive.org/movies, base de dados com milhares de filmes dos quais jamais havia ouvido falar.
Um desses filmes me chamou a atenção: Sex Madness (1934), título que passaria por uma produção da Buttman, mas que acabou me revelando alguns dados históricos de um tipo de cinema que eu não conhecia.
Vejamos, o diretor, Dwain Esper, seria um Ed Wood dos anos trinta, ou seja, alguém com vontade e garra, mas com talento ou critério nulo. Exemplifico evocando outro filme dele, também disponível no mesmo site, chamado Manic, de 1936. Os diálogos de Maniac são inaudíveis e a fotografia tão escura que mal dá pra se ver o rosto dos atores. E eu duvido que tais defeitos tenham sido causados pelo tempo...
Voltando ao Sex Madness, a estória (se é que se pode chamar estória), conta a aventura de uma mocinha ingênua (e elas sempre dão um bom mote) do interior que vai para a cidade grande tentar a sorte. Deixa o noivo e a família e vai correr atrás de dinheiro. Acaba se envolvendo com um homem mais velho e malandrão, de quem contrai sífilis (a AIDS que semeava o terror em nossos avós). Ela acaba infectando o noivo à seguir, e o resto do filme é uma aula de educação sexual disfarçada de melodrama, com um óbvio final redentor. Temas como orgias e lesbianismo, tabus da época, também estão no filme de Esper, obviamente tão mal pensados, escritos e rodados quanto possível.
Agora, o leitor se pergunta: então, se é tão ruim, porque este dileto rapaz gasta seu fôlego com tais considerações?
Respondo, digníssimo leitor: Sex Madness é genial! É o retrato de uma época do cinema C, quem sabe D, até. Filme que se enquadra nos primórdios dos Exploitations, tipo de produção concebido para explorar temas, 90% das vezes, ligados à sexualidade, à violência e às drogas (lembrando que com o passar das décadas, tais temas foram tocados com menos pudor e mais sensacionalismo desmedido, caso de Canibal Holocausto, de 1979). Por isso, Esper fez escola e logo começaram a pipocar filmes como Reefer Madness e Cocaine Fiends, todos lá no mesmo site.
Provavelmente, Esper foi um homem que cresceu dentro das tradições mais puritanas possíveis numa família religiosa americana. Digo “provavelmente”, porque não se sabe quase nada sobre ele, além do fato de que incumbia sua esposa de escrever os roteiros, e mal sabia enquadrar um plano na câmera.

Além do mais, em Sex Madness é possível perceber talvez uma das primeiras manifestações paranormais registradas por uma câmera, no momento em que uma janela (falsa, claro) se fecha sozinho (por acidente, claro) enquanto duas personagens ocasionais – e digo ocasionais porque nos filmes de Esper os personagens vêm e vão sem maiores explicações, ou mesmo nenhuma, diria – conversam numa cozinha. Erros deliciosamente, hilário.
Aos que ficaram interessados em confe-rir esses primeiros trabalhos incompetentes, notem que todos os filmes que se enquadram na categoria que citei começam com um letreiro enorme (que toma 3 ou 4 minutos do início da projeção) sintetizando a ideologia que o filme buscará seguir. Obviamente um recurso para burlar a psicologia dos personagens e a profundidade do tema. Mas, apesar disso, eu adoro esses filmes toscos, com fotografia péssima, diálogos horrorosos e reveladores de uma história que Hollywood faz questão de ocultar.